Não é a intenção deste texto questionar a validade da lição de casa. Ela é um importante aliado na tarefa de fixar conhecimentos. E importante espaço de exercício da vida escolar. Inquestionável a sua validade.

Mas… será inquestionável, também, a sua função e validade no contexto social que vivemos nos dias de hoje? Esta, acredito, está em questão.

Nos tempos em que as mães tinham como tarefa a gestão da casa e de todas as suas idiossincrasias, assumia, também, o papel de acompanhar as tarefas de casa. Dentre outas tantas, cabia o acompanhamento das lições. Sem demérito, sem julgamento. Assim era. Estava posto desta forma, e cabia, perfeitamente, no desenho familiar daquele determinado contexto social. E funcionava muito bem.

Hoje, pais e mães normalmente trabalham. As famílias buscam na modernidade, novas formas de se relacionar e de buscar identidade para estas novas configurações. As famílias nucleares encontraram novos núcleos, numa mudança como jamais vimos antes. As famílias trabalham e constroem novas dinâmicas para darem significado às relações contemporâneas.

Neste sentido, a dinâmica da vida familiar moderna exige novos contornos e novas pactuações para serem vividas e experimentadas.

Com o ritmo frenético das relações urbanas, a escassez de tempo e as múltiplas funções desempenhadas pelos pais, aparece, em doses diárias, o exercício da repetição do aprendido em sala de aula, reforçado em casa.

Fica a questão: este tão rico, quanto escasso tempo de convivência das famílias, fica comprometido com a árdua tarefa de acompanhar o “dever” de casa. E o espaço que poderia ser de troca, convívio, diálogo e construções afetivas que naturalmente se perdem com a distância imposta pela dinâmica da vida moderna, fica substituída pelo exercício cotidiano de acompanhar as lições. As relações se desgastam com a exigência da correção e da explicação da lição.

Conversando a respeito com uma professora preocupada com o desenvolvimento pedagógico de seus alunos de uma escola pública, a mesma me explicou por que mandava 5 folhas de lição por dia: porque esta era a única forma de garantir que os pais acompanhassem o desenvolvimento de seus filhos. E que lição não feita deveria ser assinada pelos pais. E então, me indaguei se esta era a melhor forma de garantir que pais e filhos se aproximassem. E se assinar uma lição não feita seria o suficiente para convergir interesses de pais, filhos e escola. Ou se, pelo contrário, não seria uma forma de carimbar a falta de apoio das famílias com base no indicador “acompanhamento de lição de casa”.

Talvez, e só talvez, possamos repensar se a lição de casa não poderia receber uma nova roupagem e que pais e filhos pudessem ser convidados a construir novos saberes em suas casas que dialogassem com  a escola, que explorassem o vasto mundo das relações em consonância com o saber formal da escola. Que a escola se some às famílias e encontre pontes para o exercício do ‘dever de casa’.

Este não é um texto acabado, mas sim, um texto provocativo. Tem como finalidade (re)discutir o papel social da escola e, propor um exercício de compreensão da pertinência e validade, nos dias de hoje, dos atos repetidos que fizeram todo sentido em dias recém- passados, mas que hoje podem representar um retrocesso quando inserido no contexto moderno. Estamos no rumo certo? Novamente a intenção aqui não é a de oferecer resposta pronta, até porque ela não existe, mas sim, de indagar. Este desenho, tão bem adaptado a outros tempos, também cabe nos dias de hoje?

Até o próximo post!

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